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A maior base de dados que existe não está na internet

Letícia A. Pozza

05/06/2019 04h00

Hoje não vim postar dicas, referências ou passos para o sucesso, mas, sim, uma reflexão. Não tenho uma solução para isso, apenas uma ideia que me tem feito pensar — e eu prometo que vou conectar ao tema dados em algum momento.

Nos últimos quatro anos e oito meses eu fiz parte da disseminação de conhecimento sobre a ciência de dados no Brasil. Co-criei muitas empresas e produtos novos de dados, desde o primeiro laboratório de dados abertos, aos primeiros cursos sobre formação de cientistas de dados, lideranças analíticas e líderes executivos. Junto a um time muito capacitado e do qual tenho profunda admiração, desenhamos soluções que mudaram estruturas organizacionais inteiras, processos, políticas, formas de pensar e formas de executar.

Juntos, deixamos de falar de big data e passamos a falar de cultura analítica. Juntos, desmistificamos o conceito tido somente como tecnológico, trazendo questionamentos de negócios e humanos, entendendo que a responsabilidade de execução e de decisão é nossa, e que cabe somente a nós trazermos a pauta para todos os níveis organizacionais. Juntos, tornamos conceitos complexos em acessíveis e provamos que ciência de dados é para todos, sim. Não somente surfamos a onda da ciência de dados no Brasil, acredito que somos parte importante do motivo dessa onda ter chegado a tantas pessoas, possibilitando que várias enxergassem novos mercados de atuação e novas oportunidades de negócios.

Erramos muito nesse caminho, também. Ser empreendedor de um tópico significa caminhar onde poucos foram, chegar em ruas sem saídas ou dar de cabeça na parede várias vezes até aprender. Mas o mais legal de trabalhar um tópico em evolução é compreender que o erro faz parte desse aprendizado, e passamos a ter uma relação diferente com ele. E hoje, saio dessa organização muito feliz, sabendo que passamos tantos desses aprendizados para todos os outros membros da equipe que vieram depois. Você já deve ter passado por esse sentimento, da mesma forma, e espero que eu vá passar por ele em vários outros momentos da vida, afinal de contas, a mudança e a evolução pessoal devem ser constantes.

Mas no meio dessa necessidade de desapego – em que deixo uma equipe e muitos projetos, mas levo comigo o conhecimento de ter passado por tudo isso para a minha próxima jornada – me questiono quanto desse meu conhecimento realmente foi passado adiante. Quanto dos erros, quanto dos acertos, quanto da experiência, da inquietação, da tranquilidade, do formato, do jeito, dos meios, dos modos, dos modelos, das ferramentas, dos diferentes mercados, das diferentes vivências, aborrecimentos e felicidades que estão gravadas no meu cérebro eu consegui transmitir e passar para todos que seguem? Espero que muito, mas acredito que muito pouco. Não acredito que o que vivi é maior do que o que outros vivem ou viverão, mas acredito que trilhar um caminho a partir de outro como guia é sempre uma forma de aprendizado transformadora.

E aí eu me dou conta de que a maior base de dados e de conhecimento que podemos ter dentro de uma organização é aquela que é levada junto das pessoas da nossa equipe quando elas vão embora. E que se não criarmos métodos e artifícios de disseminação do conhecimento e da troca de experiências e vivências, assim como temos bases de dados que não se conversam em áreas diferentes, criamos silos de bases de conhecimento. E na verdade, parece simples e óbvio, mas é geralmente feito o oposto: guardo a informação, pois faz eu me sentir mais importante, único e insubstituível (e convenhamos, ninguém é). Em algum momento deixamos de creditar o conhecimento pautada na experiência do indivíduo, empírico e heurístico e passamos a creditar somente o científico e o tácito.

E isso tem tudo a ver ciência de dados e com cultura analítica, em todas as esferas. Hoje, precisamos ter "conhecimento político" para conscientizar lideranças da importância do uso e compartilhamento dos dados. Precisamos de "conhecimento emocional e empático" para aprender sobre os problemas das pessoas que estamos resolvendo nas bases de dados analisadas. Precisamos de "conhecimentos de processos" para aprender como conectar informações e segmentos distintos para gerar novas oportunidades. Precisamos de "conhecimentos didáticos" para saber a melhor forma de contar um algoritmo complexo para alguém tomar a melhor decisão a partir dele. E precisaremos entender tudo isso para ensinar máquinas a realizar as tarefas que não queremos mais realizar.

E essa base de conhecimento mal começamos a explorar. É uma base individual, que se reunida, seria a maior base de dados existente, e que quanto antes reconhecermos sua importância, mais cedo teremos insumos para poder analisar e disseminar, sem que isso se perca.

O conhecimento que adquiri até aqui não se perde, levo comigo e se multiplica a partir de novas experiências que viverei a partir de agora, mas me comprometo a compartilhar o máximo dele que eu conseguir, pois sei do privilégio que tenho ao ter acesso a tantas mentes brilhantes e trabalhos incríveis na área e fora dela.

O que você está fazendo para compartilhar o que você sabe?

Sobre a Autora

Letícia A. Pozza é cientista de dados criativa que atua como consultora em grandes organizações no Brasil e fora, auxiliando-as a se tornarem mais orientadas por dados.

Sobre o Blog

Assim como a salada, a probabilidade de você gostar do assunto dados é muito baixa. Mas não tem como fugir: a quantidade de dados disponíveis é cada vez maior e o universo dos dados logo será o seu. Melhor é a gente aprender a entender e gostar disso o quanto antes, certo? Aqui, vamos discutir uma miscelânea de assuntos conectando Big data, ciência de dados, cultura analítica e como isso impacta o seu dia a dia. Vem comigo! Quem sabe eu não te faço gostar de salada também?