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Será que o futuro privado de Zuckerberg não deveria nos pagar pelos nossos dados?

Letícia A. Pozza

01/05/2019 16h17

Mark Zuckerberg discursou sobre a nova missão do Facebook: um "futuro privado", enfatizando mais segurança e mais conversas privadas. Mas talvez a empresa ainda precise deixar claro para o grande público como as informações são utilizadas hoje e que quem deveria ser pago por nossos dados somos nós mesmos

Nos últimos anos o conjunto de empresas que Mark Zuckerberg lidera tem rendido muitas controvérsias. O Facebook recebeu inúmeras acusações de uso indevido de informações pessoais, de falta de transparência nas regras de seus algoritmos para parceiros e de liberação de dados. Muitas vezes, esbarrou no limite de censura, escolhendo as informações que podem ser públicas ou não.

Em todos os casos e aparecimentos públicos, ao ser questionado sobre questões de segurança, Zuckerberg sempre manteve a mesma postura e a mesma resposta: "Minha equipe vai retornar com uma resposta assim que possível para esta questão". Nessa hora, além de sempre imaginar alguém da equipe dele suando frio por que ia receber este pepino pra trabalhar, eu via um profissional aberto, porém, despreparado para responder questões tão complexas que só surgiram…bem, boa parte por causa dele.

Eu sempre brinco em palestras que eu não acredito que, quando criou o Facebook há mais de dez anos, ele imaginava o tamanho do problema que ele estava criando. Depois de três anos sendo foco de discussão de privacidade de dados e a um ano das principais leis entrarem em vigor para boa parte da população brasileira e europeia, Zuckerberg resolveu se posicionar.

Mais do que uma mudança de recursos da plataforma, Zuckerberg fala sobre uma mudança de posicionamento, da empresa, da marca e dele mesmo. Para essa mudança, ele lista seis princípios sob as quais a marca e os produtos vão passar a operar:

Interações privadas – criação de espaços para interações privadas em todas as plataformas, do WhatsApp ao Messenger, permitindo conversar sem que ninguém consiga ler o que está sendo trocado, ou podendo controlar exatamente o que está sendo trocado, com total transparência.

Criptografia de ponta a ponta – é um sistema de segurança que permite a transmissão de uma mensagem a um receptor sem que ela seja armazenada ou acessada por outra pessoa no meio do caminho, permitindo somente ao receptor da mensagem a sua leitura. É como se ela colocasse a informação "embaralhada" em um cofre, fosse transportada para outra pessoa, que tem a chave a e a "fórmula para desembaralhar". Isso impede que o Facebook consiga ler suas mensagens ou entregá-las para qualquer autoridade ou governo. Essa é uma grande mudança, considerando que o Facebook tem essa tecnologia, por enquanto, apenas no WhatsApp e em uma área específica do Facebook Messenger.

Redução de permanência – reduzir o tempo que as informações ficam disponíveis nos bancos de dados da empresa. Essa questão não me surpreende, pois cada vez trocamos mais informações, tornando mais difícil para eles manter histórico de tudo (apesar de que temos evoluído cada vez mais nas tecnologias de compressão de dados) e nos últimos anos várias pessoas queriam saber se conseguiam apagar definitivamente as suas informações da plataforma.

Segurança em primeiro lugar – evitando que existam brechas de invasão e de segurança antes de operar os aplicativos. O que me fez pensar: por que já não tínhamos isso antes?

Interoperabilidade – uso de diversas plataformas em uma só. Ou seja, integrações entre Messenger e WhatsApp, bem como Facebook e Instagram. Este ponto é um dos mais controversos na minha opinião, pois significa que, para ter interoperabilidade, nós teremos que conectar todas as plataformas, distribuindo e conectando ainda mais as minhas informações para eles.

Armazenamento seguro de dados – não guardar ou gravar informações sensíveis dos usuários, como por exemplo, localização, orientação sexual, raça, informações de conta…

Além disso, ele falou muito sobre o uso de ferramentas de forma segura, como envio de dinheiro de uma pessoa para a outra, ou compartilhamento de informação sem que o sistema do Facebook consiga ler a mensagem. Basicamente, foram 40 minutos de promessas sobre uma nova forma de pensar, agir e construir produtos que as pessoas se sintam seguras, ouvidas, e que estejam nos conformes da lei de privacidade dos dados de seus países.

Muito bonito, daquele jeitão estranho do Zuck, mas o que precisamos nos perguntar e o que precisamos entender ainda? Bom, seguem alguns pontos que não ficam claros e eu ainda gostaria de entender:

1. O quesito transparência do Facebook ainda está longe de ser compreendido pela população. Um dos pontos citados é de que as informações só serão compartilhadas se alguém da conversa quiser compartilhá-la, dando total liberdade para que as pessoas decidam o que mostrar e o que não mostrar. Mas convenhamos, dos 2 bilhões de pessoas usando as plataformas de mensagens, quantas delas realmente sabem o que é feito com os dados delas hoje? E quando isso mudar, como iremos garantir que as pessoas compreendam quando a ferramenta estará com a criptografia liberada e quando ela não estará? Tanto quanto permitir recursos que façam isso, precisamos conscientizar as pessoas sobre o uso de dados pessoais.

2. Onde fica a venda de publicidade baseada em perfis e o quanto a empresa está disposta a perder de rentabilidade para atingir os objetivos de transparência? Facebook, Instagram e WhatsApp são monetizados através da venda e do uso de dados pessoais para publicidade. Em nenhum momento Zuckerberg expõe seu plano para os parceiros publicitários. Mas adianto que é muito difícil a marca deixar de ganhar dinheiro com publicidade porque deixou de guardar determinadas informações. A criptografia nas plataformas não significa que eles não saberão que você vai casar, por exemplo. Significa que eles ficaram mais precisos em determinar quem você é, e possivelmente, que vai ser cada vez mais difícil "enganar" o algoritmo seguindo páginas de assuntos muito diferentes, pois a conexão de todas as plataformas em uma só facilitará a compreensão de seu comportamento em um local só.

3. Como e com quem fica o controle de informações e quais são as regras do que podemos ou não postar nas redes sociais. A fala do responsável pelo Instagram foi muito voltada ao controle de bullying, isto é, à regulação da informação que circula nas redes sociais, buscando trazer ferramentas que permitam ao usuário não sofrer com ataques de "graça". Um dos pontos de maior ataque público a Zuckerberg é sobre diversidade e opinião. Discurso de ódio é algo que precisa ser regulado, sem dúvida, mas em algum momento a hiper-regulação pode virar um controle da informação disponibilizada para as pessoas, podendo aumentar ainda mais as bolhas sociais que iremos viver.

4. Em quanto tempo começaremos a cobrar a empresa esse tipo de atitude em vez de só ouvir um posicionamento muito bonito? Várias vezes Zuckerberg cita que sabe que isso não acontecerá da noite para o dia e que a construção será coletiva (com especialistas e grupos de diversos países envolvidos). Mas o quanto realmente o futuro pode ser privado, ou quanto ele está criando falsas sensações de proteção e um posicionamento que irá tirá-lo da lista negra dos seus acionistas?

Não me leve a mal: acho este movimento incrível e necessário, mas sinto que ainda estamos longe de ter maturidade para buscar a transparência que foi vendida nesta semana. Como consumidora dessas plataformas, mesmo tendo maior clareza do que é público ou privado, ainda não sabemos como as informações são utilizadas hoje. Não acredito ser possível "pausar" o que estamos fazendo, mas também não podemos levar mais dez anos para concluirmos que quem deveria estar sendo pago pelos nossos dados, nesse tempo todo, éramos nós. E pra deixar o clima mais feliz, segue o meu meme favorito de 2018.

E aí, o que você achou do discurso do Zuck?

Sobre a Autora

Letícia A. Pozza é cientista de dados criativa que atua como consultora em grandes organizações no Brasil e fora, auxiliando-as a se tornarem mais orientadas por dados.

Sobre o Blog

Assim como a salada, a probabilidade de você gostar do assunto dados é muito baixa. Mas não tem como fugir: a quantidade de dados disponíveis é cada vez maior e o universo dos dados logo será o seu. Melhor é a gente aprender a entender e gostar disso o quanto antes, certo? Aqui, vamos discutir uma miscelânea de assuntos conectando Big data, ciência de dados, cultura analítica e como isso impacta o seu dia a dia. Vem comigo! Quem sabe eu não te faço gostar de salada também?