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A música pop está mais repetitiva? Os números não mentem

Letícia A. Pozza

2020-04-20T19:04:00

20/04/2019 04h00

Divulgação

Música chiclete é aquela que fica presa na cabeça por uma semana, até que você encontre outra para substituí-la e…começa tudo de novo. Mas você também não tem a percepção de que ao longo dos anos a música pop, que passa na rádio e estão nas paradas top da Billboard, em especial, tem se tornado mais repetitiva? Collin Morris resolveu sair da percepção e testar essa hipótese em 2017, provando que a música pop ficou mais repetitiva ao longo das décadas, sim. E não é pouco.

Através do uso de um algoritmo de compressão chamado Lempel-Ziv, um conceito que você deve utilizar o tempo todo e nem nota –  reduzindo arquivos para zip ou gerando gifs – ele testou a repetitividade de palavras dentro de uma música. Toda vez que uma palavra se repete dentro de uma música, ela é contada somente uma vez, deixando palavras que são somente diferentes ao final. Veja o algoritmo funcionando em um trecho da música "Cheap Thrills", da Sia.

Dessa forma, ele consegue calcular o quanto uma música consegue ser "comprimida", trazendo em uma escala um percentual de repetitividade – quanto maior o percentual, maior a quantidade de palavras repetidas aquela música tem e, consequentemente, menor a quantidade de palavras únicas.

Em uma outra forma de visualizar, ele descobriu que se colocarmos elas em matrizes e sinalizarmos a repetitividade da música, geramos uma identidade visual própria de cada composição, exemplificada na música "Barbie Girl", do grupo Aqua.

Assim, ele criou um sistema chamado SongSim, que identifica as palavras repetidas na música, a partir da sua identidade visual, e mostra quantas vezes aquela palavra se repete, criando uma visualização única da música. Você pode, inclusive, customizar e colocar a música que você quiser visualizar.

E já que estamos no clima, coloquei duas músicas diferentes da Anitta: "Vai Malandra" (com Mc Zaac, Maejor feat. Tropkillaz, Dj Yuri) e "Você Mentiu" (com Caetano Veloso). Você consegue identificar qual a mais repetitiva?

A música da Sia exemplificada acima, por exemplo, reduz para até 76,2% do seu tamanho original quando testada no algoritmo. Mas isso é muito ou pouco? Bom, só temos como saber quando comparamos com diversos outros exemplos. E foi exatamente isso que o Morris fez: ele analisou 15 mil músicas, de 1958 a 2017, da Billboard Hot 100, uma tabela musical padrão dos Estados Unidos que avalia a lista das cem músicas mais vendidas fisicamente e digitalmente no decorrer de uma semana, publicada pela revista Billboard.

E o que ele descobriu?

Bom, primeiro que em média todas as músicas pop são reduzidas para até 50% do seu tamanho e que existem músicas que conseguem ser comprimidas em até 98% da sua composição original, como "Around The World", do Daft Punk (1997), reduzindo de 2,610 caracteres para 61! Se olharmos a distribuição de todas as músicas que ele analisou em um gráfico, fica assim:

O eixo X representa o índice de redução, sendo que quanto mais para a direita uma música, mais ela foi comprimida e mais ela é repetitiva. A música bem da direita é a do Daft Punk, que acabamos de citar. E o que mais observamos? Que existem 20 músicas que são MUITO repetitivas, muito além do da média. Chamamos isso de outliers, ou "pontos fora da curva". São aqueles elementos que são tão exacerbados que eles distorcem a visualização dos dados.

E quais músicas são essas? Segue a lista abaixo:

E aí, alguma das suas músicas favoritas estão na lista das mais repetitivas?

Além disso, Morris testou as top 100 músicas ao longo das décadas em repetitividade e as comparou com as top 10.

E essa eu acredito que é a sua maior descoberta: as músicas top 10 da Billboard chegam a ser 22% mais repetitivas do que todas as outras. E ao longo das décadas esse valor e a distância só aumentaram!

Enquanto nas décadas de 1960 a 70 os valores ficavam entre 35% e 50% em média, entre 80 e 90 passamos a ter mais da metade da música se repetindo e ficando cada vez menos diversa dentro de seus trechos. Nos anos 2000 as top 10 chegam próximas aos 57% de compressão, batendo seu recorde em 2014, o ano mais repetitivo da história do pop.

E quem é responsável por essa loucura? Bom, analisando os artistas individualmente, podemos ver que tem uma pessoa que não só aprendeu a fórmula, como se beneficia muito bem dela: Rihanna. Na análise de Morris, a Rihanna é a artista com a maior média de repetitividade da história. E não é a toa que as suas músicas estão sempre nas primeiras mais ouvidas pela Billboard.

Ou seja, nas últimas duas décadas, podemos ver que quanto mais repetitiva a música for, maiores as chances de ela estar entre as top 10 da Billboard. Será que descobrimos que a fórmula para o sucesso da música pop é a sua falta de complexidade textual?

E mais do que isso, será que a indústria não é apenas um reflexo dos nossos hábitos, uma vez que nós nos tornamos mais influenciados por músicas mais repetitivas, criando uma fórmula que incentiva esse tipo de consumo e logo, esse tipo de produção? Bom, essa é uma hipótese que ainda não temos resposta e que teremos que analisar muitos dados para conseguir responder!

Para acessar a pesquisa completa do Morris, clique aqui.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a Autora

Letícia A. Pozza é cientista de dados criativa que atua como consultora em grandes organizações no Brasil e fora, auxiliando-as a se tornarem mais orientadas por dados.

Sobre o Blog

Assim como a salada, a probabilidade de você gostar do assunto dados é muito baixa. Mas não tem como fugir: a quantidade de dados disponíveis é cada vez maior e o universo dos dados logo será o seu. Melhor é a gente aprender a entender e gostar disso o quanto antes, certo? Aqui, vamos discutir uma miscelânea de assuntos conectando Big data, ciência de dados, cultura analítica e como isso impacta o seu dia a dia. Vem comigo! Quem sabe eu não te faço gostar de salada também?