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Oculus Quest pode ser grande passo para o Facebook ver dentro de sua casa

Letícia A. Pozza

03/05/2019 13h12

Para que possamos chamar um grande grupo de dados de big data, não adianta termos somente a velocidade e o volume de dados. Precisamos, também, ter variedade. O que a ciência de dados vem proporcionando nos últimos anos é a possibilidade de testarmos as nossas hipóteses e as nossas simulações em um volume de dados muito maior. E a tecnologia nos permite coletar essas informações das formas mais inusitadas, inclusive replicando determinados cenários e situações para avaliar nossa reação a elas.

Imagine que queremos analisar a reação de pessoas a determinadas estímulos, como por exemplo, a diferença de reação a cenas de filmes de terror, de amor, ou de comédia. Ou ainda compreender quais as sensações físicas que uma pessoa com fobias de palhaço ou de aranhas pode ter ao se deparar com aquilo que mais teme? É exatamente aí que podemos contar com as novas tecnologias para aumentar a variedade de dados que temos e gerar novas formas de captar e analisar dados das pessoas: com a realidade virtual (RV) e com a realidade aumentada (RA).

A RV abre toda uma nova possibilidade de dados: só com o uso dos óculos já conseguimos perceber nossas reações a partir de nossos movimentos. Dê mais alguns anos e faremos isso pelas nossas pupilas, suor das mãos, respiração, batimentos cardíacos, tom de voz, rapidez na resposta do corpo e, por que não, sinapses mentais. Eu sei, eu sei, conseguir mensurar nosso cérebro ainda é algo um pouquinho distante, pois são máquinas gigantescas que fazem isso hoje. Mas todos os outros, nem tanto.

Essa semana, no F8, a equipe do Facebook lançou dois novos óculos de realidade virtual: Oculus Rift S e Oculus Quest, ambos vendidos a US$ 399. Pode parecer um valor muito alto, mas é o quanto pagamos por um smartphone de última geração. Não estamos longe de dizer que teremos um desses óculos em nossa casa. E com o Quest, em nossas bolsas. E o que isso significa em termos de coleta de dados? Perguntei a opinião do Rodrigo Terra, sócio-fundador e COO da ARVORE, empresa de RV responsável por jogos como Pixel Ripped 1989:

"Com o lançamento do Oculus Quest, eu fico pensando que logo eles conseguirão saber como é o ambiente privado de todas as pessoas, pois ao colocar o óculos, eles mapeiam o espaço à nossa volta, fazendo o paralelo entre o mundo 'real' e o 'virtual'. Assim, terão uma noção muito mais nítida de reprodução tridimensional de qualquer ambiente que aquela pessoa estiver. E isso é muito valioso para além dos algoritmos de identificação que são treinados hoje apenas com fotos ou vídeos, pois em alguns segundos teremos o mapeamento de um espaço em tempo real, com identificação de objetos, de pessoas, volume, e com um nível de detalhamento incrível.

Se eles estão pensando nisso, e eu acredito que devem estar, o que antes o Facebook tinha, como uma foto do meu aniversário, agora tem mais detalhes e mais informações de formatos de rosto, de corpo e de movimento, algo que uma foto tirada de determinado ângulo não teria. E com o Quest, passamos a ter isso em todos os lugares, pois ele pode ser carregado na mochila."

Mesmo Mark Zuckerberg e todos da sua equipe falando muito sobre privacidade nas plataformas (e deixando diversos pontos soltos), a empresa nem tocou no assunto sobre que tipo de dados o Facebook estaria coletando com essas novas tecnologias. Mas o que sabemos é que abre um leque enorme de possibilidades de novos tipos de dados que nem imaginávamos existir. A variedade e a variabilidade, em outra escala: a escala real.

Quando questionei o Terra sobre quais os tipos de sensores que já estão disponíveis nessas tecnologias, ele comentou:

"O grande objetivo desses headsets hoje é se tornarem mais baratos, principalmente o Oculus Quest. Além de se livrar de cabos, eles preferem tirar sensores em vez de colocar novas tecnologias que encarecem, pois o que realmente buscam é a massificação de mercado. Logo, são poucos os aparelhos que possuem eye-tracking (monitoramento do movimento dos olhos), que é o caso do lançamento da HTC Pro Vive Eye, que já vem com o monitoramento embutido, mas ainda não é um produto acessível a todos.

O que eu acredito, pessoalmente, é que uma vez eles se tornando baratos, voltaremos a ter a conexão desses aparelhos com outros aparelhos que usamos, como [a pulseira fitness] Fitbit. Essa conectividade das diversas tecnologias embarcadas é o que irá gerar um universo de dados biológicos mais precisos."

Independente da quantidade de sensores disponíveis ou não, é um novo tipo de interação que traz todo um novo significado para o Big Data: escalas e espaços reais, com monitoramento em tempo real das mais diversas reações. E possivelmente, isso gerará toda uma nova discussão de regulações e privacidade envolvendo tecnologias pelas quais, mais uma vez, o Facebook é responsável. Será que dessa vez Zuckerberg vai buscar antever a necessidade dessa discussão ou vai esperar o público provocá-la?

Sobre a Autora

Letícia A. Pozza é cientista de dados criativa que atua como consultora em grandes organizações no Brasil e fora, auxiliando-as a se tornarem mais orientadas por dados.

Sobre o Blog

Assim como a salada, a probabilidade de você gostar do assunto dados é muito baixa. Mas não tem como fugir: a quantidade de dados disponíveis é cada vez maior e o universo dos dados logo será o seu. Melhor é a gente aprender a entender e gostar disso o quanto antes, certo? Aqui, vamos discutir uma miscelânea de assuntos conectando Big data, ciência de dados, cultura analítica e como isso impacta o seu dia a dia. Vem comigo! Quem sabe eu não te faço gostar de salada também?