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Somos vendidos o tempo todo! Entenda como as empresas nos perseguem

Letícia A. Pozza

20/02/2019 12h57

 

Este cenário deve ser bem familiar para você: você realiza uma busca no Google por "vestido para festas", clica em algum site indicado, seleciona um vestido que gostou, mas resolve não comprar naquele momento, deixando para realizar esta escolha mais tarde.

Ao sair daquele site, você abre o Facebook no seu celular e… aquele exato vestido está ali, te encarando. Pelos próximos dias, esse vestido te persegue, e em todos os sites que você entrar ele vai te encontrar, a não ser que você compre o vestido ou… comece a busca por outro produto.

Mas como os outros sites sabem do seu histórico de buscas e interesses? Será que tem alguém lhe vigiando? De certa forma, sim. O que está acontecendo com você se chama "retargeting". É uma ferramenta muito utilizada pela publicidade para gerar vendas para aquele produto que você já demonstrou interesse, mas não está pronto para comprar naquele momento.

E a forma como ela funciona é de uma tecnologia bem complexa, mas de uma lógica simples: quando você clica em algo que está conectado a esta tecnologia, você deixa uma trilha da sua identidade digital atrelada aquele produto. Essa identidade, vamos chamá-la de "pixel", pode ser vendida ou trocada por este site para outros sites que você acessa.

É quase como se existisse a seguinte conversa, em milésimos de segundos, sem você saber:

Site que você acessou diz:

  • Ei, Facebook, eu tenho um pixel aqui de tudo que essa pessoa fez no meu site. Eu sei te dizer que essa pessoa adorou este vestido, pois ela ficou bastante tempo pesquisando, além de ter colocado-o no carrinho. Vamos trocar? Eu te digo quem é essa pessoa e o que ela curtiu e você entrega um folhetinho para ela toda vez que ela te acessar, dando visibilidade do meu produto.

Facebook responde:

  • Eu topo, mas você tem que me pagar $ para que isso aconteça.

Pronto, seu comportamento digital acabou de ser vendido.

E você é vendido o tempo todo.

Ao acessar um site, ao realizar uma compra, ao realizar um cadastro, ao curtir uma foto de gatinhos, ao dirigir de carro utilizando o GPS, ao comentar na foto da sua mãe, ao entrar em um local e acessar o wi-fi, ao pagar uma conta, ao deixar de pagar uma conta…

Em todas essas situações e inúmeras outras, você está sendo rastreado. É praticamente impossível ser incógnito hoje, e dependendo do tipo de informação que se tenha, você pode valer centavos ou centenas de reais.

Existem empresas que são especializadas em coletar e organizar dados sobre você, as chamadas "Data Brokers", ou corretoras de dados.

Uma Data Broker conhecida é o Serasa Experian, empresa que reúne diversas informações sobre seu comportamento de compra e pagamento, vendendo seus dados para auxiliar outras empresas a definirem, baseadas na sua probabilidade de pagamento, se você representa um risco alto ou baixo na hora de liberar crédito em formato de empréstimos ou cartões, por exemplo. Mas existem muitos outros, no Brasil e no mundo.

Ou seja, não existe nada de graça na internet.

Essa ilusão de que mídias sociais como o Facebook não são pagas é por que a moeda de troca é você –e suas informações.

Não, eu não estou exagerando. E sim, é um assunto muito sério. Basicamente, ao aceitarmos determinados termos de privacidade estamos dizendo que estamos dispostos a trocar nossa privacidade por serviços personalizados. Esses dados alimentam algoritmos que recomendam seriados para você (Netflix), criam listas personalizadas de música (Spotify), liberam ou não crédito no banco.

Mas será que isso é transparente para todos? Deveria ser.

E aqui entram dois pontos super importantes:

  • Você lê os termos de privacidade quando você se cadastra em algum lugar?

Você deveria ser responsável pelos seus dados, afinal de contas, eles são seus. Logo, quando aceitamos as políticas de privacidade de uso de algum site, serviço ou aplicativo, deveríamos ler o que estamos aceitando, certo? Mas ninguém lê. Estudos mostram que mais de 90% das pessoas nunca leu algum termo de privacidade na vida. Assim, será que podemos reclamar quando nossos dados são vendidos?

  • Depois, será que as regras pelas quais fomos selecionados são abertas e claras?

Quando você não recebe um cartão de crédito ou é constantemente impactado por uma marca de sabonetes nas mídias, será que você não tem o direito de saber quais as informações que fizeram você ser escolhido ou não? Pois tudo aquilo que pode ser utilizado para segmentar por motivos justificáveis, também pode excluir por motivos preconceituosos.

Bom, isso tudo vem sendo discutido por diversos países, inclusive o Brasil, e visa ser endereçado na "Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD)", garantindo que até 2020 as pessoas tenham seus direitos e privacidade respeitadas, trazendo medidas de transparência aos serviços que utilizam dados para entrega de conteúdos e serviços para os usuários.

Mas de nada adianta termos essas medidas, se não educarmos as pessoas sobre a importância disso tudo, pois se não, mais uma vez, estamos terceirizando a responsabilidade sobre nossa própria privacidade e esperando que o estado e as organizações tenham o mesmo cuidado que cada um de nós teríamos com aquilo que é muito valioso para ser simplesmente vendido: nossa identidade.

Sobre a Autora

Letícia A. Pozza é cientista de dados criativa que atua como consultora em grandes organizações no Brasil e fora, auxiliando-as a se tornarem mais orientadas por dados.

Sobre o Blog

Assim como a salada, a probabilidade de você gostar do assunto dados é muito baixa. Mas não tem como fugir: a quantidade de dados disponíveis é cada vez maior e o universo dos dados logo será o seu. Melhor é a gente aprender a entender e gostar disso o quanto antes, certo? Aqui, vamos discutir uma miscelânea de assuntos conectando Big data, ciência de dados, cultura analítica e como isso impacta o seu dia a dia. Vem comigo! Quem sabe eu não te faço gostar de salada também?

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